O QUE EU SINTO

Dicionário de termos indiciários: Impureza

IMPUREZA: a inclusão de vários conceitos abaixo no âmbito de impureza deve-se mais a certas tradições comportamentais, religiosas e éticas do que a critérios objetivos, contemporâneos, e pode ser considerada em muitos casos preconceituosa.

impuridade, imundície;
impudicícia, indecoro, indecência, salacidade, obscenidade, cenosidade, pacholice, despudor, impudor, desonestidade, desenvoltura, carnalidade, lubricidade, sensualidade, sensualidade imoderada, lascívia, luxúria, carne, desejo, filoginia, voluptade, voluptuosidade, soltura, tripúdio;
libertinagem, libidinagem, podridão, devassidão, torpeza, crápula, bilontragem, licenciosidade, frascaria, desregramento, dissolução de costumes, depravação, corrução, pecado, pouca-vergonha, paixões carnais, carnis desideria = apetite venéreo, concupiscência, desejos impuros, ereção, priapismo, eretismo,;
faux pas, passo errado = mau passo, escorregão, amor incestuoso, incesto, fornicação, mércia, coito = afrodisianismo, cópula, ligação sexual, concúbito, ajuntamento carnal;
defloramento, desfloração, desflorescimento, vergonhaça, sedução, transvio, desonra, vergonha, desvirginamento;
estupro;
poluição, conspurcação, ultraje ao pudor, abuso, rapto, amor livre, prostituição, má vida, a vida de amor livre, fado, vida de bordel, degradação, meretrício;
heterismo, amor entre iguais, fanchonismo = pederastia, sodomia, uranismo = homossexualidade, inversão sexual, tribadismo, onanismo, masoquismo, sadomasoquismo, esbórnia, suruba;
amor sáfico/lésbio/lésbico, pederasta, bicha, veado, boiola, gay, fanchona, lésbica, paraíba, cafetão, gigolô, cafetina;
adultério, infidelidade conjugal, menage a trois, corno, chavelho, chifre, concubinato, concubinagem, amigação, amiganço, contubérnio, amizade (colorida), mancebia, mangalaça, amancebamento, barreguice, amizade ilícita;
harém, bordel, covil, alcoceifa, farra;
covil, antro de sensualidade;
alcoice, prostíbulo, lupanar, calógio, bramadeiro, lodaçal, sentina, pandemônio, rendez-vous, casa de passe, cada da tia, puteiro, serralho, pornografia, pornografismo,;
obscenidade, ditos obscenos, fesceninas, bocagem, turpilóquio, pacholice, pachochada ou pachouchada, palavrão, palavrada;
asneira, asneirola, asnada;
dicélias, dança lasciva, fofa; quimbete, batuque, chica, xiba, cançã, sarabanda, maxixe; orgia, chegança, bacanal;
partes pudendas, órgãos genitais, regiões baixas, regiões públicas, encasamento;
cio, berra, brama, lua, aluamento;
ninfomania, uteromania, furor uterino = erotomania = andromania = metromania = histeromania, satiríase, sadismo, lenocínio;
alcovitaria, alcovitice, alcoviteirice, prexenetismo;
afrodisiografiia: descrição dos prazeres do amor, kama sutra.

V. ser (devasso & adj);
praticar atos luxuriosos = voluptatis deditum esse, luxuriar, meter a alma no inferno, pecar; pecaminar, praticar atos contrários à virtude, marafonear, arreitar (chulo), excitar apetites venéreos em, frangalhotear, dar um amasso, serrar(-se), estimular sensualmente;
estar (desvirginada & adj); ser oferecida à lubricidade de, debochar, devassar, prostituir; conspurcar, corromper, impurificar, deflorar, descabaçar, molestar, rouçar = violentar, desonestar, bolinar, fazer perder a candura, desvirginar, desvirgar, violar, estuprar, fandigar, aforcinar, forçar;
ultrajar, atentar contra o pudor; abusar de, desflorar, desonrar, imacular, seduzir, transviar, extraviar, desencaminhar, amarrar o pano (afric), quebrar os pontos a uma donzela, poluir, salpicar de infâmia e de lama, manchar, incestar, amancebar-se, contubernar-se, amaciar-se, amigar-se, abarrigar-se, ter comércio com, ter amante teúda e manteúda, ter seu arranjo (pop) = viver em mancebia, ter cópula carnal com, ter relações ilícitas com, ter coito, ter dares e tomares com alguém, conhecer carnalmente uma mulher, guilhar, copular, fazer sexo/amor, transar, comer, afogar o ganso, molhar o biscoito, trepar, bater palhada, chupar, prostituir-se, lançar-se na devassidão, conhecer;
descomedir-se, desregrar-se, escancarar a honra,
prevaricar, masturbar, pecaminar, pecaminar consigo mesmo, bater ou tocar punheta, prestar serviços torpes contra a natureza, cometer adultério, levar a desonra ao lar de alguém, por os cornos a alguém, cornear, acornear, fazer os fusos tortos, minotaurizar, incestar, amariscar, amulherar-se, amulherengar-se, ter a perversão do, ser; não ter a língua limpa, profanar ouvidos castos, soltar a língua, desbocar-se, dizer obscenidades, falar palavrão, deslinguar-se, alcovar, alcovitar;
servir de alcofa/de alcoviteiro/de pau de cabeleira, inculcar para a prostituição, estimular sexualmente, andar com cio, andar na berra, estar no cio.

ADJ. pornográfico, erótico, impuro, salaz, cenoso, imundo, desvergonhado ou desavergonhado, incasto, impudico, brejeiro, imodesto, desonesto, indecente, indecoroso, despudorado, irreverente, destabocado, desenvolto, deslinguado, desbocado, destravado, malsoante, grosseiro, livre, solto, equívoco, obsceno, vergonhoso, imoral, antimoral, malicioso, chulo;
pecaminoso, repelente, repulsivo, apimentado, amatório, cupido, fescenino, improferível, provocante, afrodisíaco, picante = salgado, concupiscente, concupiscível, intemperante, dissoluto, frascário, azevieiro, licencioso, lúbrico, libertino, marafoneiro, pático, vulgívago, bordeleiro, frangalhoteiro, femeeiro, atiradiço, libidinoso, sensual, heterista, incestuoso, crapuloso, fresco, venéreo, voluptuoso, safado, sem vergonha, imorigerado, luxurioso, lascivo, molito, depravado, sórdido, torpe, venerário, cenagoso, devasso, degenerado, desgarrado, dissipado, bandário, corrompido, pervertido, podre, hediondo, corruto ou corrupto;
de costumes lassos/livre, alcovitado = oferecido à prostituição;
impudente, escandaloso, descarrado, cínico, incontinente, bestial, debochado, amazelado, amazelento, asqueroso, porco, latrinário, prostibulário, sujo, perdido, reperdido, de virtude fácil, magano, seduzível, maculável, lasso, desordenado = duas vezes lasso, dissoluto, relaxado;
contrário e amoral aos bons costumes, mau, ignóbil, adultério, incestuoso, sodômico, pederasta, fanchone, reverso, aluado/referindo-se aos animais, de mais baixa espécie, femeeiro, atiradiço, afeminado, mulherengo, amulherado, amulherengado, alfenado, proclivis ad libidnem = dado lascívia; procax moribus = de costumes libidinosos.

“Mas quem pode livrar-se porventura dos laços que o amor arma brandamente?”

AZEVEDO, Francisco Correia dos Santos. Dicionário analógico da língua portuguesa: ideias afins/thessaurus.

CAMÕES, Luis de. Os lusíadas: poema épico.

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Nada continua

nada continua

mesmo assim o copo

sob o sol da manhã atravessa

jerônimo monteiro, o centro de Vitória:

coxinha e coca cola esquecimento

ontem a menina

chegou com os pés na mesa

e disse “não era”

meu o antibiótico, o teu estímulo

New Adventures in Hi-Fi, o décimo disco do R.E.M.

Clique na imagem para ouvir a íntegra do álbum.

Faz um tempo que desconfio da importância que o R.E.M. tem tomado em minha vida. Talvez seja a banda da fase 25/30 anos – relativamente boa. A discografia passa por mim de forma mais ou menos descompromissada: como nesse final de semana, em que o New Adventures in Hi-Fi bateu logo num sábado chuvoso e de dúvidas, me acompanhou pelo novo filme de Marcelo Gomes e lá pela madrugada tocou inteiro em minha cabeça enquanto revia O Céu de Suely. No domingo, adquiriu ainda outro sentido. Segue crescendo.
Estímulo via Scream&Yell.

Perder coisas em uma viagem

Minas Gerais, domingo, 6 de novembro. Noite clara e ainda gelada para um começo de novembro. Os moradores da cidade inteira estranham a temperatura, as presenças que persistem, não só a minha, na cidade. Pai e mãe: sono profundo. Na rua, ainda vozes dos que insistem em fazer a trilha das madrugadas no interior. Só o cigarro acesso ilumina a escada. Eles batem papo. Especial da Rádio Batuta, IMS, Paulo Mendes Campos.

“A vida é como o cigarro Continental, queima sozinho.”

P.M. Campos.

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Como faço para tirar, novamente, este texto da cabeça? Lembro de duas frases: “a janela entreaberta, o som eletrônico (e maquínico) do estabilizador “. Apesar de salvo com o nome de arquivo kkkkkkkk.txt. O computador riu por último, qualquer coisa como um bug fez desaparecer o texto do computador. Esperava que esse pequeno pedaço de ficção pudesse se tornar a voz de um dos personagens de um texto futuro.

Nunca mais vai voltar.

No texto também uma impressão sobre o vento frio da noite. Não como a de hoje, uma melhor. Descobri Receita de Domingo e fiz por merecer. Uma madrugada de segunda-feira como se premiasse a semana que aparece intranquila. Prêmio por estresse antecipado. Amanhã palavras sobre cadernos, vontades e projeções. Novamente Paulo Mendes Campos – aparecer pra mim também em um post. Serrote, Gabinete de Curiosidades:

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Hoje de noite, platéia do Vitória Cine Vídeo. No intervalo para o cigarro, a imagem bonita quando olhei para trás. Crianças movendo-se em câmera lenta em um gramado verde. A bola passando devagar de uma mão a outra. Antes disso o público, a tela grande. A luz atravessando aos poucos o olhar de cada um. Aos poucos hipnotizados.

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O cotidiano que vem e vai, vontade e entusiamo. Semana I: um blog; na Semana II alguns projetos paralelos. Os artigos longos e inspiradores aparecem naquelas em que, de repente, o desespero aos poucos chega perto. Leio a Revista Piauí. De quando em quando esqueço de sua existência. São pequenas redescobertas quando volto a um número atrasado e me dou conta que queria ter mais tempo. Que apenas leria, ou postaria em um blog, ou escreveria aquele livro.

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Cadernos de anotações: amanhã fotografar o final de noite em Vitória, Centro da Cidade – entre 18h50 e 19h15. A bandeira no céu. A idústria do desenvolvimento. O trânsito parado, a urbanização. O semáforo fechado e a garçom que passam correndo pela vista.

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Trecho de Receita de Domingo:

Café e jornais devem estar à nossa espera no momento preciso no qual violentamos a ausência do sono e voltamos à tona. Esse milagre doméstico tem de ser. Da área subir uma dissonância festiva de instrumentos de percussão — caçarolas, panelas, frigideiras, cristais anunciando que a química e a ternura do almoço mais farto e saboroso não foram esquecidas. Jorre a água do tanque e, perto deste, a galinha que vai entrar na faca saia de seu mutismo e cacareje como em domingos de antigamente. Também o canário belga do vizinho descobrir deslumbrado que faz domingo.

Enquanto tomamos café, lembrar que é dia de um grande jogo de futebol. Vestir um short, zanzar pela casa, lutar no chão com o caçula, receber dele um soco que nos deixe doloridos e orgulhosos. A mulher precisa dizer, fingindo-se muito zangada, que estamos a fazer uma bagunça terrível e somos mais crianças do que as crianças.

Motivadores de atenção plus fugacidade

“As Whiskeytown finally ground to a halt in the wake of an astonishing number of personal changes following Faithless Street (coupled with record company problems that kept their final album, Pneumonia, from reaching stores until”

De noite, quando cheguei em casa, minha conexão e meu telefone fixo não estavam mais funcionando. Suspeito, é claro, que a conta programada para bater no débito automático voltou e, sem qualquer explicação da NET, tive os serviços cortados. E é muito tarde para descer os dezenove andares que me prendem à vista do Penedo e ir ao BB tentar uma conciliação com a tele.

Um pouco antes do almoço, como bom mineiro da Zona da Mata (Vale do Pomba, para ser exato) meio educado em terras capixabas, comentava sobre importância de firmar laços com o Rio de Janeiro – há quem diga que os cariocas são pouco confiáveis. A NET me deu um bom aviso. Segurando firme no estereótipo, não poderia imaginar um carioca fechado em um apartamento com vista de beleza natural trabalhando numa quinta à noite. Não devia mesmo trabalhar.

O certo é que logo que cheguei em casa, arrastei minha mesa para a janela da sala, obstinado a adiantar uns trabalhos preocupantes, como tinha anunciado no Twitter, enquanto me preparava para deixar a agência. Coca-Cola e chocolate no supermercado antes de subir – uma noite de trampo, de qualquer forma estou aqui a escrever.

No elevador uma boa gafe: a primeira pessoa do plural para descrever uma olheira ostentado apenas pelo singular – como se todos acordassem ainda sem saber o que fazer pela manhã, mesmo com uma agenda de fragmentos orbitando a cabeça. Uma coisa de cada vez, eu falei. Os jornais, ainda necessários para ordenar as coisas, estabelecer alguma rotina. Depois o Facebook, pois se a detenção da informação deixou de ser privada a grupos restritos, as interpretações passaram a ser relevantes a partir de uma rede de contatos confiáveis. No mais, as pessoas precisam saber que você sobreviveu a mais uma noite, penso toda manhã antes de quase anunciar: ei, vocês, acordei vivo!

E o dia amanheceu lindo em Vitória. Lindo e quente. Jeans claro e blusa justa em ritual. Acertar contas. Carregar o celular; sair de casa, interagir, recolher e amontoar mais informações, a pilha de jornais no canto da sala.

10h: a capacidade de uma notícia de 2 mil toques embaralhar os ânimos de uma comunidade inteira. Página 11: professor e apoiador do candidato à reitoria da universidade é acusado pelo também docente da mesma instituição e também candidato à reitoria de criar um endereço escuso no Yahoo e um perfil fake no Facebook e usar as duas ferramentas para difamar o candidato nas redes sociais e listas de e-mail da comunidade acadêmica. Telefonemas, tuítes, facetalks e mais telefonemas. Afinal, no que se deve confiar? 12h: almoço com a sogra e gatinho.

Antes do almoço encontro com uma amiga: a capacidade que alguns têm de não se afligirem, desaparecerem em meio ao sono enquanto outros secam a boca de tanto falar, como se a compreensão de cada um dos fatos e a interpretação correta das ações narradas fossem fundamentais para a escalada que inevitavelmente cada um dos leitores que chegou até aqui, no texto, deve fazer para chegar a um lugar onde se possa sentar com conforto.

Um brinde, tremamos! No trabalho, não bastassem as tarefas, como se obrigados, remontamos as peças entre uma atualização e outra. Procedemos a favor em um único click – não significa nada, porque, afinal, o que cabe aqui é compreender pouco enquanto continuamos na tremedeira. De alguma forma, o sentimento de agir de forma correta, de manifestar. Cabe-nos, entretanto, o intento de criar algo bonito com as bolinhas de papel acumuladas no dia-a-dia. Esta não seria nossa verdadeira intenção?

E de que forma você que atravessou mais um parágrafo pode interpretar o texto, aqui, neste blog? Fica a dúvida se caminho para o exercício do cronismo ou se lamento.

Volto para a noite. A garganta remanejando correções para as micro-feridas só percebidas quando o gostinho de pus começa a brotar na boca, o pé em movimento acelerado, como na adolescência. O dia-informação digerido em pouco mais de quatro mil toques – penso ser muito, muito, quando a 140 por hora colido cotidianamente com o português. Todo dia me pergunto, para que tanta urgência, meu povo? Ainda assim o empregador liga e oferece um esporro pelo erro inevitável cometido no trabalho. Esta urgência, ainda tremedeira. E na Rua da Lama, na Barata Ribeiro, como vão as coisas?

Vamos manter a calma, pois este foi só mais um dia.

Esfoliação facial e melancolia

Pouco mais de quatro meses atrás cismei em deixar de fumar. Negava quando  me acusavam de novo limpo e tudo mais. Em tese, não consegui parar de fumar porque não sucumbi à vigilância plástica de um mundo inteiro sobre o meu hábito. Continuei bebendo fora de casa com amigos fumantes. O fim eu plantei sozinho.

A decisão veio quando percebi que fumava feito um maníaco. E isso não me fazia bem, é claro. As olheiras – esse charme de nascença – ficaram mais fundas e negras, perdi peso, o pulmão não me dava mais descanso e outros problemas foram acumulados. A saúde principalmente, mas outros motivos também pesaram para a que a decisão fosse tomada após um longo planejamento. Quando chegou o dia, fiz pouco alarde para os amigos, eles foram descobrindo sozinhos, conforme me encontravam.

Também não contei ao diário. Tentei evitar qualquer momento de discussão íntima, pois sabia o quanto seria difícil me fazer convencer que conseguiria. O plano era ligar no modo vida sem tabaco e tocar para frente, até o dia em que eu me visse sóbrio, levando a rotina ao natural, sem sentir falta. Para não fugir ao padrão, também entrei na academia e fui um bom aluno durante exatos 30 dias.

A decisão não pesou até o dia em que comecei, de fato, a estudar para a prova de mestrado da Ufrj. O livro do Benjamin estava um tanto adiantado, mas ainda sentia falta de um fundamento que o interligasse às outras obras. O livro de Foucault que havia lido, descobri mais tarde, era a ponta do iceberg do conceito que viria com a nova indicação de leitura. Rancière e Agamben, minha humilde ignorância deve admitir, eram conhecidos de nome. Virgínia Kastrup…  olhe lá. Por fim, a surpresa não menos desconcertante de um Deleuze mais confuso que o esperado, mas não tão difícil quanto diziam.

As leituras e o que fui descobrindo em sequência esfoliaram minha cara. Sim! Em pouco menos de um mês percebi que não havia estudado nada na graduação e isso foi suficiente para instaurar sinais de pânico na minha cabeça fundida pela falta de cigarros. Desse momento em diante começou minha peregrinação entre páginas da rede em busca de algum sentido, ou só uma desculpa, para o não entendimento das teorias que circulavam como fantasmas na tela do computador – para completar, decidi ler a bibliografia em ebooks pirateados.

Se eu não tivesse deixado de fumar – recomeço assim, pois preciso encontrar uma razão plausível para o desordenar dos fatos – talvez tivesse atravessado esse processo com muito mais facilidade. A desatenção vem em pílulas: primeiro as pesquisas na web, sempre sobre assuntos relacionados ao estudo; depois a fixação pelo Facebook e Twitter (fontes inesgotáveis de conteúdo para alimentar um blog como este);  desespero é o terceiro estágio, sabendo do caos instaurado, tenta-se compensar o tempo perdido em redes sociais e pesquisas com visitas rápidas à sites diversos de pornografia entre uma leitura e outra. O momento final se dá quando passamos do vazio do pornô ao macacão de vinil da celebridade. É o momento da entrega. E dá-lhe G1, F5, fã sites e qualquer outro portal que possa congregar o maior número possível de futilidade por ecran².

O último estágio é de completa prostração, e prostração rima com melancolia. E esse tempo de debilidade se desdobra em dois. No primeiro, convertemos as horas de estudo em passeio por um deserto de sal; no segundo, enfastiados, remoemos as horas desperdiçadas num tempo livre que aparece, ou nos momentos em que a atenção deve estar fixa em outra atividade, como o trabalho. Mas não dá. A inaptidão para levar a tarefa ao final se desdobra para todas as outras atividades do dia-a-dia, reflexo do inegável estado deprimido em que nos encontramos.

Daí pro futuro algumas cervejas descem, faz-se uma faxina, inventa-se uma sessão de cinema, deseja-se escrever e lê-se em segundos o livro enrolado por semanas. Nesse ponto falta pouco para voltar a fumar. O corpo percebe o desastre e tenta se mexer. Mas não basta completar o dia, iniciar atividades e finalizar trabalhos deixados pela metade, a agitação de verdade está dentro da cabeça, uma bolinha de pingue-pongue espancando o interior da caixa encefálica.

Os panfletos do programa anti-tabagismo alertam para a quebra de concentração que a falta de nicotina pode causar. Mesmo assim, os que decidem parar de fumar insistem em tocar a tarefa como um processo contínuo de auto-sabotagem. Então eu descobri que escolhi uma péssima hora para largar um vício, talvez eu não quisesse deixá-lo.

***

No final de semana me entorpeci de maconha para acordar. Hoje decidi voltar a fumar.

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