Noite gorda

P. rasga a noite iluminada com os braços abertos e toma impulso, preparando-se para levantar voo na clareira e acompanhar os pequenos insetos que iluminam seu corpo. Corre muito, na margem do descampado, até que seu pé direito estanca num desvio e projeta P. no ar, onde rodopia uma noite inteira com os olhos tragados pelo apagar e acender dos bichos que descambarão mais uma vez no chão pela manhã, fartos, adormecidos com o sorriso lívido dos insetos que experimentaram uma noite gorda.

Cidade submersa

P. nutria um sentimento eminente de risco quando teve sua queda pelo oceano. Longe de tudo, entregue à imagens perdidas no limite extremo da terra, P. tentou chegar perto da água sem cair, até se entregar à precisão diária das estrelas e se perder.

Não haveria outra convocação senão o oceano: o oceano de muitas horas, o oceano que solavanca o humor, o oceano das manhãs de P., quando acordava menino e divisava tsunamis ao longe, cobertos pela mais espessa névoa a confundir o horizonte e avançar sobre a terra, o mesmo oceano da ansiedade matinal, quando se aproximava dele em verões de gritaria, acordando todos da viagem com algazarra, pronto para colocar os pés na areia, pulando rápido com o carro ainda em movimento, pronto para tocar suas margens com o pé despelado de menino. O oceano que leva P. à companhia das estrelas e do silêncio boreal na travessia, o oceano onde P. boiou de papo para o ar, ao sabor das correntes que o trouxeram ao maciço. O oceano que não privou P. de intempéries, de todo o modo; oceano que comprimiu a coragem de exploradores do passado, até se lançarem aos monstros e abismos que P. vem encontrar; o oceano que apresentou a P. bestas mastodônticas, mitos da primeira infância navegados entre tonelagens líquidas, por entre gargantas de gulas inescapáveis; o oceano que arremessou P. em mares de fio comprido e o compeliu contra o maciço, onde P. prostrou no começo da manhã, inconsciente encalhado, carnoso, feito um animal.

neely, 7/24/07, 11:02 PM, 8C, 4114x10331 (2548+250), 138%, Repro 2.2 v2, 1/40 s, R59.8, G56.3, B76.5

VITÓRIA – PONTE INTERDITADA POR MANIFESTANTES

Retorno ao jazigo de dispersos, vulgo Minhas Antologias, com novidade que talvez precise de uma ou outra palavra – ainda que o texto fale por conta própria e não peça explicações. Introduzo e deixo o texto por conta de vocês.

“VITÓRIA – ponte interditada por manifestantes” é um texto de encomenda publicado no livro “JUNHO – potência das ruas e das redes” pela fundação alemã Friedrich Ebert Stiftung (FES). Baixe o pdf do livro clicando na imagem abaixo:

junho

O texto sobre Vitória, que assino, foi desdobrado do artigo “O delírio da vista“, publicado na Rede Universidade Nômade na primeira semana de julho de 2013. “O delírio…” foi produzido como relato das mobilizações de junho no Espírito Santo sob encomenda professor Giusepe Cocco durante o curso do primeiro semestre de 2013 no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ, em conjunto com o professor Henrique Antoun, que assisti que como ouvinte naquele período.

Tal texto desdobrou-se no meu projeto de mestrado na Psicologia Institucional UFES e, posteriormente, em “VITÓRIA – Ponte Interditada por manifestantes”, texto publicado no livro “JUNHO – Potências da rua e das redes.” Objetos de pesquisa mudam, as experiências, por outro lado, são pura travessia, são inscrições na pele, e foi dessa sensação que tentei impregnar o relato.

Nele, volto aos protestos de 2005 desencadeados contra o aumento da passagem dos coletivos da Grande Vitória e tento remontar as mobilizações dos anos posteriores, até 2013. Parto da hipótese de que as condições para a tomada da Terceira Ponte e, posteriormente, a ocupação da Assembleia Legislativa do Estado foram postas ao longo dos anos pelas lutas dos movimentos sociais.

É um ponto de vista subjetivo. Se estava vivo em mim, articulou-se mesmo após as conversas que garantem o relato enquanto narrativa sobre um acontecimento – é uma e só mais uma versão sobre as lutas por aqui e, por mais que ela se desencadeie de forma linear e apresente uma sucessão de fatos, ela não se pretende total e inquebrantável. Espero apontamentos que fortaleçam uma versão posterior, caso aconteça.

A FES, que publica o livro, atua no Brasil em parceria com entidades organizadas da sociedade civil, partidos e centrais sindicais como o PT e a CUT de forma a ampliar a democracia e o desenvolvimento no país.

“A Fundação acompanha de forma ativa a formação e consolidação de estruturas da sociedade civil e do Estado com projetos em mais de 100 países, apoiando a democracia e a justiça social, sindicatos livres e fortes bem como a defesa dos direitos humanos e a igualdade étnico-racial e de gênero”, como explicado em sua página na rede.

O livro foi sistematizado e organizado por uma rede de professores e ativistas comprometidos com a expansão das versões sobre o que temos chamado de “jornadas de junho”, para designar as mobilizações de massa que despontaram no Brasil em 2013 e que se desdobram desde então no plano político, afetivo, e subjetivo dos brasileiro e, inclusive, dos autores dos relatos.

São eles: Alana Moraes, Bernardo Gutierrez, Henrique Parra, Hugo Albuquerque, Jean Tible e Salvador Schavelzon.

Para os organizadores, em texto de apresentação do livro, junho está vivo e continuar a acontecer no plano das subjetividades:

“Junho está sendo, junho é, junho será. Está vivo, dentro de nós, diluído nas novas subjetividades, flutuando sobre um novo ecossistema social, criando novos espaços de política lateral. Junho será, nas redes e nas ruas. Junho é. Vive nas micropolíticas, nos muitos projetos-processos sonhados de forma coletiva: nas cidades, favelas, universidades, nos quilombos, nas florestas, nos corpos que procuram liberdade. Chegará de surpresa, como uma nova explosão emocional, como nova gramática social”

Meu muitíssimo obrigado aos amigos que contribuíram para a consistência desse texto e aos organizadores da publicação pela oportunidade.

Dicionário de termos indiciários: Impureza

IMPUREZA: a inclusão de vários conceitos abaixo no âmbito de impureza deve-se mais a certas tradições comportamentais, religiosas e éticas do que a critérios objetivos, contemporâneos, e pode ser considerada em muitos casos preconceituosa.

impuridade, imundície;
impudicícia, indecoro, indecência, salacidade, obscenidade, cenosidade, pacholice, despudor, impudor, desonestidade, desenvoltura, carnalidade, lubricidade, sensualidade, sensualidade imoderada, lascívia, luxúria, carne, desejo, filoginia, voluptade, voluptuosidade, soltura, tripúdio;
libertinagem, libidinagem, podridão, devassidão, torpeza, crápula, bilontragem, licenciosidade, frascaria, desregramento, dissolução de costumes, depravação, corrução, pecado, pouca-vergonha, paixões carnais, carnis desideria = apetite venéreo, concupiscência, desejos impuros, ereção, priapismo, eretismo,;
faux pas, passo errado = mau passo, escorregão, amor incestuoso, incesto, fornicação, mércia, coito = afrodisianismo, cópula, ligação sexual, concúbito, ajuntamento carnal;
defloramento, desfloração, desflorescimento, vergonhaça, sedução, transvio, desonra, vergonha, desvirginamento;
estupro;
poluição, conspurcação, ultraje ao pudor, abuso, rapto, amor livre, prostituição, má vida, a vida de amor livre, fado, vida de bordel, degradação, meretrício;
heterismo, amor entre iguais, fanchonismo = pederastia, sodomia, uranismo = homossexualidade, inversão sexual, tribadismo, onanismo, masoquismo, sadomasoquismo, esbórnia, suruba;
amor sáfico/lésbio/lésbico, pederasta, bicha, veado, boiola, gay, fanchona, lésbica, paraíba, cafetão, gigolô, cafetina;
adultério, infidelidade conjugal, menage a trois, corno, chavelho, chifre, concubinato, concubinagem, amigação, amiganço, contubérnio, amizade (colorida), mancebia, mangalaça, amancebamento, barreguice, amizade ilícita;
harém, bordel, covil, alcoceifa, farra;
covil, antro de sensualidade;
alcoice, prostíbulo, lupanar, calógio, bramadeiro, lodaçal, sentina, pandemônio, rendez-vous, casa de passe, cada da tia, puteiro, serralho, pornografia, pornografismo,;
obscenidade, ditos obscenos, fesceninas, bocagem, turpilóquio, pacholice, pachochada ou pachouchada, palavrão, palavrada;
asneira, asneirola, asnada;
dicélias, dança lasciva, fofa; quimbete, batuque, chica, xiba, cançã, sarabanda, maxixe; orgia, chegança, bacanal;
partes pudendas, órgãos genitais, regiões baixas, regiões públicas, encasamento;
cio, berra, brama, lua, aluamento;
ninfomania, uteromania, furor uterino = erotomania = andromania = metromania = histeromania, satiríase, sadismo, lenocínio;
alcovitaria, alcovitice, alcoviteirice, prexenetismo;
afrodisiografiia: descrição dos prazeres do amor, kama sutra.

V. ser (devasso & adj);
praticar atos luxuriosos = voluptatis deditum esse, luxuriar, meter a alma no inferno, pecar; pecaminar, praticar atos contrários à virtude, marafonear, arreitar (chulo), excitar apetites venéreos em, frangalhotear, dar um amasso, serrar(-se), estimular sensualmente;
estar (desvirginada & adj); ser oferecida à lubricidade de, debochar, devassar, prostituir; conspurcar, corromper, impurificar, deflorar, descabaçar, molestar, rouçar = violentar, desonestar, bolinar, fazer perder a candura, desvirginar, desvirgar, violar, estuprar, fandigar, aforcinar, forçar;
ultrajar, atentar contra o pudor; abusar de, desflorar, desonrar, imacular, seduzir, transviar, extraviar, desencaminhar, amarrar o pano (afric), quebrar os pontos a uma donzela, poluir, salpicar de infâmia e de lama, manchar, incestar, amancebar-se, contubernar-se, amaciar-se, amigar-se, abarrigar-se, ter comércio com, ter amante teúda e manteúda, ter seu arranjo (pop) = viver em mancebia, ter cópula carnal com, ter relações ilícitas com, ter coito, ter dares e tomares com alguém, conhecer carnalmente uma mulher, guilhar, copular, fazer sexo/amor, transar, comer, afogar o ganso, molhar o biscoito, trepar, bater palhada, chupar, prostituir-se, lançar-se na devassidão, conhecer;
descomedir-se, desregrar-se, escancarar a honra,
prevaricar, masturbar, pecaminar, pecaminar consigo mesmo, bater ou tocar punheta, prestar serviços torpes contra a natureza, cometer adultério, levar a desonra ao lar de alguém, por os cornos a alguém, cornear, acornear, fazer os fusos tortos, minotaurizar, incestar, amariscar, amulherar-se, amulherengar-se, ter a perversão do, ser; não ter a língua limpa, profanar ouvidos castos, soltar a língua, desbocar-se, dizer obscenidades, falar palavrão, deslinguar-se, alcovar, alcovitar;
servir de alcofa/de alcoviteiro/de pau de cabeleira, inculcar para a prostituição, estimular sexualmente, andar com cio, andar na berra, estar no cio.

ADJ. pornográfico, erótico, impuro, salaz, cenoso, imundo, desvergonhado ou desavergonhado, incasto, impudico, brejeiro, imodesto, desonesto, indecente, indecoroso, despudorado, irreverente, destabocado, desenvolto, deslinguado, desbocado, destravado, malsoante, grosseiro, livre, solto, equívoco, obsceno, vergonhoso, imoral, antimoral, malicioso, chulo;
pecaminoso, repelente, repulsivo, apimentado, amatório, cupido, fescenino, improferível, provocante, afrodisíaco, picante = salgado, concupiscente, concupiscível, intemperante, dissoluto, frascário, azevieiro, licencioso, lúbrico, libertino, marafoneiro, pático, vulgívago, bordeleiro, frangalhoteiro, femeeiro, atiradiço, libidinoso, sensual, heterista, incestuoso, crapuloso, fresco, venéreo, voluptuoso, safado, sem vergonha, imorigerado, luxurioso, lascivo, molito, depravado, sórdido, torpe, venerário, cenagoso, devasso, degenerado, desgarrado, dissipado, bandário, corrompido, pervertido, podre, hediondo, corruto ou corrupto;
de costumes lassos/livre, alcovitado = oferecido à prostituição;
impudente, escandaloso, descarrado, cínico, incontinente, bestial, debochado, amazelado, amazelento, asqueroso, porco, latrinário, prostibulário, sujo, perdido, reperdido, de virtude fácil, magano, seduzível, maculável, lasso, desordenado = duas vezes lasso, dissoluto, relaxado;
contrário e amoral aos bons costumes, mau, ignóbil, adultério, incestuoso, sodômico, pederasta, fanchone, reverso, aluado/referindo-se aos animais, de mais baixa espécie, femeeiro, atiradiço, afeminado, mulherengo, amulherado, amulherengado, alfenado, proclivis ad libidnem = dado lascívia; procax moribus = de costumes libidinosos.

“Mas quem pode livrar-se porventura dos laços que o amor arma brandamente?”

AZEVEDO, Francisco Correia dos Santos. Dicionário analógico da língua portuguesa: ideias afins/thessaurus.

CAMÕES, Luis de. Os lusíadas: poema épico.

Simetria mutante: “As virgens suicidas”, de Jeffrey Eugenides

Fala-se muito sobre (I) a queda de qualidade do primeiro para o terceiro romance de Jeffrey Eugenides – As virgens suicidas (1993) e A trama do casamento (2011) – e (II) a transição feita pelo autor do primeiro para o segundo,  Middlesex (2002), que valeu a Eugenides dois prêmios muito importantes nos EUA, o National Book Award e o Pulitzer, em 2002.

As Virgens Suicidas é um livro muito bom. A prosa é concisa e a história desmonta o leitor a cada troca de vozes (são diversos narradores,  alguns críticos insinuam a que o autor quis simbolicamente tratá-los  de forma a compor um coro como o usual na tragédia grega). Sim, o livro fala de uma tragédia. Por cima, trata do desmantelamento do “sonho americano” – momento de criso do capitalismo, momento que também precede o arrocho neoliberal dos 80. No texto conciso e lírico sobram odes aos valores que, no fim da última década, vão ser cultuados em nostalgia não só pelos estadunidenses.

Em uma casa de cinco meninas, filhas do professor de matemática do colegial que toda a vizinhança frequenta e de uma católica (ver traços de Margareth White, a mãe louca da Carrie, personagens de Stephen King – talvez não seja só coincidência), a caçula se mata e desencadeia a a trama.

Após o suicídio de Cecília, as investidas da mãe contra a vida social das filhas culminam em depressão coletiva.  As meninas quase não saem do casulo. Em outra semelhança com Carrie, um baile de high school é definitivo para a trama. A partir desse momento chave, a desgraça vai ser consagrada em cada um dos personagens tocadas pelo olhar das Lisbon.

Quase vinte anos após o ocorrido, os colegas de rua, todo meninos, reconstroem o ocorrido a partir de objetos deixados pelas Lisbon numa lata de lixo, cartas e pequenos tesouros endereçados a eles, entrevistas com parentes, vizinhos e colegas de escola. É através desse tear da memória e de pequenos objetos que acompanharemos os fatos, realocados em vozes protegidas da ingenuidade adolescente, quase 20 anos após o ocorrido. O autor caleja seus narradores. Faz com que eles atravessem o niilismo oitentista – em destaque em A trama do casamento – para transformá-los nos autores em busca de uma narrativa.

A opção Eugenides é certeira: As virgens suicidas poderia ser um livro de sentimentos, mas é um livro de sensações. A descrição da tentativa de suicídio de Cecília, lembrada pelo garoto que a descobre é exemplar nesse sentido. A autopsia de uma das Lisbon, colhida de um dos médicos da equipe que a examinou após a morte é outro.

Cecília nua na banheira, um dos pulsos cortados agarra firmemente um escapulário da Virgem Maria. O que poderia sobrar dessa imagem em um homem que a viu  tomado de adrenalina por invadir um lugar secreto sem ser convidado, à espreita de descobertas mais doces – como as caixas de absorventes descobertas no armário do banheiro em outra ocasião> No romance, essas imagens são abertas e delicadamente descritas. Durante a autópsia, o médico busca algum mal no corpo – mas os pulmões ainda guardam a iluminação rosáceo-azulada do fraco neon, o fígado não guarda sinais de álcool, tudo parece perfeito demais sob a pela a pele branca e os olhos iluminados. Mas, como Cecília afirma ao psiquiatra, em análise após a primeira tentativa de suicídio, “Você nunca foi uma menina de 13 anos“. Dessa forma, como nós poderíamos – ou os narradores poderiam saber – porque tudo pode acontecer da forma como acontece.

O assassinato das árvores doentes da região e, em grande escala, o baile de debutantes de máscaras de gás são outro tipo de imagem-sensação no romance. Nelas, o tumor e a morte química, o mal além, o vírus letal, os tremores de fim de sonho, o choque pós-moderno, o fim da tradição, o esfacelamento da comunidade, a vida real atravessam o simbolismo para, de antemão, nos questionar: que tipo de questão eu buscarei responder aqui> Não existem respostas soltas – menos insinuação, por mais que os simbolismos pareçam indicar o contrário.

Em todo caso, a representação parece estar no cadafalso em As virgens suicidas. Dividido em cinco parágrafos, o romance subverte a ideia de imaginário cultural estadunidense – desloca a paisagem controlada pelo fanatismo religioso, o terror pela fresta da porta e a sangria da sexualidade virginal para um plano onde o quebra-cabeça de simetria mutante nos impede de concluir o jogo. Dessa forma, as imagens e só elas, temperadas pela catástrofe, a ardência juvenil e a nostalgia podem elevar o texto e fazer o leitor respirar por um momento, fora do limbo.

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As virgens suicidas também é lembrado pela adaptação dirigida por Sofia Coppola, de 1999. O filme iniciou a carreira de diretora e roteirista de Sofia e apresentou as fundições de seu cinema: ela divide com o pai o interesse pelo sonho americano e sua falência, os fluxos suburbanos e, de certa forma e as proximidades eventualmente provocadas pela distância. A assinatura da diretora se dá pelo ruído daquilo que não se vê em seus filmes… mesmo com os longos silêncios e imagens aparentemente vazias de sentido – ver as cenas musicais de Um lugar qualquer (2010).

A adaptação de As virgens suicidas é deliciosa. História de tarde chuvosa, apesar das alamedas e sacadas iluminadas, a diretora mostra seus recursos e intenções num filme de formação.  Sofia nega o alarde em seu cinema. A diretora é acusa, às vezes, de soar à música radiofônica pretensiosa, de assinatura autoral. Entretanto, seus filmes estão permeados por buscas, respiros de linguagem e de afeto.

A música nesse primeiro filme é imperdível. Se no livro Eugenides cita bastante hard rock, Carole King e os sucessos radiofônicos do final dos 70 (há no romance pelo menos uma passagem lindíssima de diálogo musicado, no telefone). Sofia transmite o humor de sua adaptação com a trilha original composta pelo Air – essencial na última parte, especialmente na sequência do baile.

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Nada continua

nada continua

mesmo assim o copo

sob o sol da manhã atravessa

jerônimo monteiro, o centro de Vitória:

coxinha e coca cola esquecimento

ontem a menina

chegou com os pés na mesa

e disse “não era”

meu o antibiótico, o teu estímulo

Depois de junho: a política das caminhadas

O dia em que vimos um bom filme, fui ameaçado de morte por um homofóbico improvável e expulso do shopping por acreditar que devo manter os pés no chão em qualquer circunstância ou lugar.

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Que experiência foi o dia 22 de julho. Vi com amigos um filme que nos fez caminhar da Praia de Camburi ao Centro de Vitória. No final da meia volta pela cidade rolou aquele cansaço bom, de quem cumpriu uma missão para o coração. Depois de Maio nos motivou a colocar o papo em dia, tentar entender o que tem acontecido no Espírito Santo, no Rio de Janeiro [com ou sem Francisco] e no Brasil. Assim quem sabe poderíamos nos entender um pouco melhor.

Do Jardins, cruzamos a Ponte Ayrton Senna e o Triângulo até a Praça dos Namorados. A Carol empurrava sua bicicleta, Appel enrolava seus cigarros, eu caminhava com uma bota cano médio nova, o Fred compartilhava uma barra de chocolate ao leite. Àquela altura, eu já não conseguia segurar a dor de dois tornozelos em carne viva – os band-aid não deram conta.

Relaxamos, claro. Tirei a bota e continuamos a caminhada. Ríamos ou praguejávamos alto. Amigos enfim. Quase no Shopping Vitória, onde compramos filtros para cigarros, fomos abordados por um desses caras que estão sempre nas ruas da cidade, no campus Goiabeiras, com pulseiras de sementes, aranhas de arame, brincos de pena.

Ele me mandou falar como homem. Ele me mandou ser natural. Ele falou que se eu não falasse direito ele me mataria. Como se eu ou qualquer outro não pudesse ser o que quisesse – em reprodução ou produção de cultura. Como se ele mesmo não pudesse estar ali.

Além do susto, por não conhecer aquela pessoa, minha única reação foi questioná-lo, com os olhos fixos nos olhos dele: ” MAS VOCÊ?!”.

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Porque para mim e para todos que estavam ali comigo não fazia o menor sentido o comportamento homofóbico daquele indivíduo. Mas sabe como é… ainda misturo tudo. E idealiza. A gente esquece que as relações de poder vão se dar em todos os espaços. “O opressor não vai estar na sua tenda, no grupo da sua simpatia, na marcha.” Sonho né?

Enfim, entramos ainda meio atordoados no shopping. Eu de pé descalços, com a bota nas mãos.

Shopping Vitória: o mesmo estabelecimento que negou refúgio aos capixabas quando tentavam escapar das agressões da polícia no dia em que assistimos – na escadaria da Assembleia ou por um link ao vivo, os deputados engavetarem o projeto que pedia o fim do pedágio da Terceira Ponte em meio a bombas de efeito moral, balas de borracha, abordagens abusivas e tudo mais – como bem lembrou a Carol antes de terminarmos nossa caminhada.

Da portaria principal fomos à tabacaria, onde compramos os filtros e pedimos uma sacola grande para guardar o sapato. Tudo certo até aí.

Ao sair da loja fomos abordados por um segurança. Educadamente ele nos informou que eu não poderia ficar ali de pés descalços. Bem menos chocado que anteriormente, porque as conexões se fazem rápido numa situação como aquela, eu gritei com ele. Gritei como quem aprendeu a gritar com o subalterno negro que está ali sob o meu comando para fazer a capina – “Pode deixar que já estou indo! Estamos indo embora!”. Como se ele estivesse de fato afetado com os meus pés cabeludos plantados na pedra fria do shopping à beira mar.

Temos deixado as pessoas serem duras conosco. É difícil fugir desse controle. Não haverá fuga se não houver tentativa sincera. Essa tem sido uma das minhas verdade nos últimos dias.

Poderia supor vários motivos para a ação do segurança. A única verdade que posso extrair da ação do segurança é que na rua o homem de bem não anda descalça. A gente sabe quem anda sem sapatos na cidade. Esses cidadãos, claro, não podem entrar no shopping.

Por isso o acontecimento. Sem planejar, fizemos política. É a oportunidade que é preciso agarrar*.

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A praia é uma exceção que não tem contado muito para mim nos últimos tempos. A separação dos públicos por quiosques na Curva da Jurema nos sábados e domingos é bastante ofensiva e a gente convive com ela numa boa. A Curva vai sendo gentrificada a cada quiosque reformado. Aos poucos o shopping se confunde com praia. Com uma perspectiva dessa sob os nossos olhos, não dá para endurecer.

As meninas tiraram suas sapatilhas e tênis em solidariedade. Os funcionários da banca de óculos moderninhos olhavam assustados. O repórter da Rede Gazeta que cobre amenidades para a Revista AG passou por nós e parecia também não entender nada. O segurança que nos abordou, talvez alarmado, comunicou-se com os colegas.

Em menos de um minuto apareceu um segurança montado num daqueles carrinhos patéticos que transitam pelo shopping assegurando a ordem. Talvez ele tenha ficado assustado quando ameacei derrubá-lo se ele não saísse da minha frente, pois estávamos indo embora. Ele brincou conosco antes disso. Talvez tenha achado um pouco de graça na cena. Mas desse momento em diante ele nos escoltou, sob o olhar atento dos outros seguranças que surgiram enquanto caminhávamos para a portaria principal do shopping entre consumidores não menos curiosos.

Estávamos no mesmo shopping que negou refúgio aos manifestantes/consumidores que tentaram se abrigar da violência policial e do Estado na desocupação da ALES. A mesma Assembleia que se confunde com shopping center  todos os dias.  No mesmo Espírito Santo que perseguiu e prendeu aleatoriamente 44 militantes na última sexta-feira, dia 19 de julho. Entre os detidos, 11 deles são menores.

*Deleuze, Gilles. Controle e devir – entrevista de Gilles Deleuze a Toni Negri. In: Conversações. São Paulo, Ed 34, 1992.